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Contos / Conan 3 - Vingança
« Online: Janeiro 16, 2015, 05:07:12 pm »
O perfume de Jenna ainda se desprende do corpo de Conan. A lembrança da mulher, deixada em companhia de Dietra na cabana nos arredores de Athros, por um instante atenua os pensamentos sombrios do cimério. Durante a cavalgada até a cidade, situada na porção leste da Coríntia, Conan cogita de que forma chegará perto o suficiente de Athicus para enfiar-lhe a espada no coração e consumar sua vingança. O conselheiro de Zhenkri, que o havia traído e envenenado, certamente já sabia que ele sobrevivera à sentença e que o triunfo chegara junto da aprovação do Rei. Estaria preparado, portanto.
Em Athros, o cimério é distraído pelo clima de festa que toma conta das ruas naquela manhã. A notícia do triunfo na batalha contra Polopponi já chegara, e o regozijo dos habitantes é palpável. Tomando ruas menos movimentadas, Conan dirige-se até a Taverna de Valiatti. Em frente ao estabelecimento, o proprietário oferece cerveja a alguns guardas que, com mal disfarçado orgulho, colhem de uma população satisfeita os louros que seriam mais justamente dirigidos àqueles que lutaram nas cercanias de Polopponi. Conan entre eles.
Conan aproxima-se o bastante para que Valiatti perceba a sua presença, mas sem deixar que os ébrios soldados façam o mesmo. Em seguida, dirige-se aos fundos da taverna. Ali, depois que o taverneiro dispensa um soldado interessado em manter cheio o seu caneco, uma conversa se dá.
- Por Mitra, cimério. Tem coragem para voltar aqui. Se os soldados o virem, não hesitarão em matá-lo.
– Pouco me importa o que agrada aos soldados de Zhenkri. É com um membro da corte que tenho contas a acertar.
– De quem está falando?
– Athicus, aquele traidor maldito.
– O conselheiro de Zhenkri? Esqueça o que disse sobre coragem. Agora, acho que perdeu o juízo.
– Onde ele vive? Sei que não é no palácio.
– Existe uma área da cidade onde habitam os nobres. Estive lá recentemente…
– Então você pode me ajudar!
– Talvez mais do que imagina. Há três noites servi um vinho raro, de Kyros, na casa de um nobre chamado Murilo. Na ocasião, tive a oportunidade de ouvir uma conversa ou outra. Não que eu desejasse isso, mas sabe como o vinho contribui para a grandiloquência dos argumentos… Pois bem, nessa noite percebi que Athicus não é admirado por seus pares. Diria, inclusive, que é temido e odiado.
– Não tenho nada a ver com as intrigas da corte e seus jogos de serpentes.
– Você não está me ouvindo Conan. A cidade está repleta de soldados desde o ataque contra Polopponi. E no distrito dos nobres isso é ainda mais verdadeiro. Mesmo que conseguisse entrar lá, não passaria despercebido, e, certamente, seria morto.
– E o que sugere você?
– Esse nobre, Murilo, parecia especialmente revoltado com as atitudes recentes de Athicus. Como você disse, é um jogo de serpentes. Quem sabe, ele possa ajudá-lo a arrastar-se até a grama de Athicus.
– Vou encontrá-lo, então.
– Deixe por minha conta. Interessa-me especialmente cair nas graças de um nobre como Murilo.
****
Apesar do auxílio oferecido por Valiatti, que sempre mostrou-se confiável, e a possibilidade de contar com a disposição do tal nobre de nome Murilo, Conan já cansou-se de acumular cicatrizes causadas por mãos civilizadas que lhe foram estendidas. Por conta própria, dirige-se até o pequeno porto de Athros. Ali, o porte do cimério e sua mão pesada são mais do que o suficiente para intimidar os homens de índole duvidosa que acompanham com olhar preguiçoso o trabalho duro dos estivadores.
Descobre que não foi a poucos que ocorreu a idéia de aproveitar-se do clima festivo para surrupiar bens de nobres. Entretanto, a fagulha de coragem teria sido rapidamente extinta pela presença de um grande contingente de soldados nas ruas, especialmente na sua região mais rica. E entre aqueles que têm algo de valor da proteger, ou segredos escusos a esconder, Athicus é o mais destacado…
****
No segundo andar da Taverna de Valiatti, Conan amola a espada que recebeu de Ornish enquanto aguarda, impaciente. Já é início da madrugada quando Murilo chega, vestindo uma capa com capuz. Os cabelos perfumados do nobre despertam suspeitas em Conan, que porta-se agressivamente durante toda a conversa.
- Valiatti mencionou que tem contas a acertar com Athicus. Isso é verdade, Conan?
– Eu não menti para ele. E ele não mentiu para você. Espero que também não existam mentiras em sua oferta de ajuda.
– Minha oferta é sincera.
– Então me diga como posso entrar na casa daquele cão traiçoeiro sem alertar os guardas.
– Através de uma galeria subterrânea. Por ali atravessa um braço do rio que banha a cidade e carrega os dejetos das residências.
– Imagino que logo os peixes não suportarão o contato com aquilo que vocês, nobres, tem a esconder em seus subterrâneos.
– Não me confunda com Athicus, Conan. Aquele é um homem ainda mais perigoso do que fez parecer o breve contato que tiveram. Ele planeja tomar o poder de Zhenkri enquanto o rei encontra-se com a atenção voltada ao campo de batalha, em Polopponi.
– E o que você teria contra isso? Zhenkri não é visto com bons olhos pelos homens que ele humilhou subindo ao trono pelo fio da própria espada.
– Ainda que Zhenkri desrespeite nossas tradições e ostensivamente repudie o modo de pensar da Coríntia, ele é um governante melhor do que Athicus jamais será. Estamos falando de um homem capaz de atos impensáveis de magia para adquirir poder.
– Traição e feitiçaria. Duas coisas abundantes entre as pessoas perfumadas ao sul da Ciméria. E o que você ganha com tudo isso?
– A paz de saber que não é Athicus o primeiro na linha sucessória caso algo ocorra com Zhenkri, em Polopponi.
– E os guardas dentro da casa?
– Não estão lá desde que Athicus realizou uma reunião com seus aliados, há algumas noites. Isso não quer dizer que a mansão esteja desguarnecida.
– Ainda não encontrei nada que resistisse à minha espada e, por Crom, isso não mudará hoje.
****
Com uma túnica gasta cobrindo seu físico poderoso, Conan se esgueira pelas ruas do distrito mais nobre de Athros. A alegria do restante da cidade não encontra eco aqui. Soldados percorrem as ruas em turnos regulares, conversando em voz baixa, como se a par de um iminente perigo oculto.
As suspeitas tomam forma no aço do bárbaro, que eviscera um dos vigias. A morte chega antes mesmo que um gemido lhe escape da garganta. Com velocidade estonteante, Conan ataca o segundo adversário, visando suas pernas. Mais por sorte do que habilidade, o homem coloca a espada no caminho do golpe, evitando o aleijão permanente. Ciente de que não pode vencer a força daquele estranho de cabelos negros, o homem assume postura defensiva e grita um alerta. A boca ainda está aberta quando o corte rápido desfigura seu rosto, jogando a mandíbula aos ratos que habitam uma viela escura.
Certo de que em breve outros guardas responderão aos ruídos de batalha, Conan move a pesada tampa de pedra no chão e leva consigo, para os subterrâneos, o corpo do segundo soldado. Ali, em meio à escuridão e ouvindo o rumor da conversa nas ruas, acima de sua cabeça, ele veste a armadura do cadáver.
Sem tochas, o cimério avança tateando as paredes de barro e pedra que formam a galeria. Apenas seus instintos apurados são capazes de guiá-lo na escuridão, evitando uma armadilha rudimentar que provoca o desmoronamento de grandes rochas. Mais tarde, Conan se arrependeria por ter disparado o artefato, que certamente serviu de alerta a Athicus.
Seguindo as indicações oferecidas por Murilo poucas horas antes, Conan emerge no pátio interno da mansão, aos fundos. A grande pedra que barra o caminho aos subterrâneos é deixada encostada, caso uma fuga rápida se faça necessária.
****
Conan não faz mais barulho do que uma sombra quando se desloca pelo pátio. Não há sinais de guardas, ainda que ele possa ouvir conversas vindas além dos muros. Alguns metros adiante, uma porta entreaberta revela o que parece ser um alojamento recentemente desocupado. Pedras de amolar e uma adaga quebrada confirmam a informação de Murilo: Athicus dispensou recentemente todos os guardas de sua residência.
Encontrando uma tranca frágil, Conan invade a mansão através de um pequeno depósito contíguo à cozinha. Uma grande mancha enegrecida, sinal de fogo recente, marca uma das paredes. Utensílios domésticos sobre uma mesa de madeira revelam o recente preparo de uma grande refeição.
Por meio de uma fresta o bárbaro pode ver o salão principal da mansão. Ali, sentado em uma das confortáveis cadeiras que cercam a suntuosa mesa de jantar, um homem repousa. Conan aproxima-se em silêncio, tomando o cuidado de não esbarrar em restos de comida e talheres que emporcalham o chão. O homem não move um músculo até que o bárbaro o agarre pelas costas, com os dedos de aço selando seus lábios enquanto a outra mão leva a espada até a garganta. Está morto, percebe Conan. Sua pele ressecada e solta sobre a carne parece com a dos homens banhados com óleo fervente no cerco a Venarium.
Vislumbrando a tênue luz que escapa sob a porta de outro aposento, Conan abandona o cadáver.
****
Sem o menor ruído, Conan adentra uma ampla biblioteca. Estantes com centenas, milhares, de livros ocupam as paredes laterais. Ao fundo, vestindo um manto semelhante àquele usado na noite em que selou e subverteu um acordo com Conan, está Athicus. Ele não dá atenção à aproximação do bárbaro que, agachado, procura aproximar-se.
- Conan, que desejável visita.
Sem responder, o cimério ergue-se e arremessa a pequena espada tomada de um dos guardas que matou. Com um silvo, a lâmina atravessa o aposento a atinge a parede, encravando-se na fissura entre as pedras. Conan amaldiçoa-se pelo erro e avança contra Athicus. Ao contrário do que esperava, o nobre não recua ou implora. Athicus sorri, e ao aproximar-se para golpeá-lo, Conan percebe a carne exangue e os olhos fundos do adversário. A lâmina corta o ar. O golpe que estriparia o mais saudável guerreiro mal faz piscar o esquelético erudito.
- Feitiçaria!
– Bárbaro ignorante. Mais uma vez sua mente estreita lhe trai. A surpresa que acaba de ter não é a única que reservei para você nesta noite.
Tocando o bárbaro, Athicus produz um efeito semelhante ao do mergulhar o braço em água gélida, roubando as forças de Conan.
- Hahahaha… Você me servirá bem, Conan. Sua vitalidade compensará com sobras o que aquele verme na sala não pôde oferecer.
Mesmo aturdido, os sentidos de Conan estão completamente alertas. E sãoeles que o salvam de um abraço mortal. Voltando-se para encarar quem tentava emboscá-lo, o cimério depara-se com uma criatura de traços grosseiros, escura pelagem negra e postura curvada. O rosto, uma paródia do humano, tem um focinho achatado e lábios grossos que mal escondem longas presas amarelas. E os olhos, os olhos brilham cheios de crueldade primitiva.
Enquanto recua diante dos terríveis adversários, Conan vislumbra sobre a mesa o amuleto de Asketh. Tomando a peça depois de esquivar-se das investidas selvagens do gorila, Conan a esmaga contra a parede.
- Sua iniciativa incipiente não pode reverter o que essa jóia me permitiu fazer, Conan. O seu poder agora é meu. Mate-o Gulah, mate-o!
Afastando o brutal primata com golpes até então pouco efetivos ao mesmo tempo em que evita o toque enregelante de Athicus, Conan evade-se até o salão principal. Ali, toma uma tocha e arremessa-a contra os livros na biblioteca. As chamas consomem os livros sobre a mesa de estudos, distraindo o feiticeiro temporariamente.
Apenas o incansável desejo de lutar e matar concede uma pequena vantagem a Conan diante da força primitiva de Gulah. Suas mãos poderosas e ataques selvagens chegam perto de esmigalhar as costelas do bárbaro, que dirige todos os seus golpes às pernas do adversário. À beira da exaustão, Conan finalmente desfere um ataque definitivo, decapitando Gulah. O arremedo de manto que a criatura vestia agora tem um tom mais vivo de vermelho.
- Não. Não!
Com o traje chamuscado pelas chamas que agora lambem as paredes da biblioteca, Athicus grita de horror e ódio diante da morte de seu servo. Seu aspecto doentio é completamente visível, revelando uma condição abaixo da vida natural.
Esgotado, Conan mantém-se distante das mãos do feiticeiro, sempre a ponto de roubar-lhe os últimos gramas de força. Explorando a autoconfiança desmedida de Athicus, Conan lança golpes fracos, que mal ferem o cadavérico inimigo. Quando este finalmente baixa a guarda, a espada do bárbaro é impulsionada com toda a tensão que seus poderosos braços ainda são capazes de gerar. A lâmina corta através da pele, músculos e entranhas, parando apenas ao encontrar a coluna de Athicus. Ainda vivo, ele solta um grito que garganta humana alguma seria capaz de emitir.
Conan planta a pesada bota no peito de Athicus, jogando-o contra as labaredas. Em meio às cinzas do conhecimento proibido acumulado ao longo de toda uma vida marcada pela perfídia, o feiticeiro finalmente encontra sua tumba.
Diante dos gritos dos guardas, que forçam a porta principal da mansão, só resta a Conan refugiar-se nos subterrâneos, onde seus instintos farão com que a fuga seja uma certeza após a vingança ter sido finalmente consumada, com aço e fogo.

2
Contos / Conan 2 - Agrilhoado
« Online: Janeiro 16, 2015, 05:05:59 pm »
Nos porões do castelo de Zhenkri, Rei da cidade de Athros, Conan está preso. Acorrentado contra a parede, o bárbaro já perdeu a noção do tempo decorrido desde sua captura. Mesmo na masmorra úmida e fétida, as feridas do combate feroz contra os soldados estão cicatrizadas. Os guardas daquele buraco lhe lançam olhares de ódio. Um deles, em especial, parece carregar especial rancor. Acompanhado por outros dois, o soldado esmurra o rosto de Conan repetidas vezes.
- Então, bárbaro maldito? Apreciando a hospitalidade de Zhenkri?
– Cão! Tire essas correntes e eu lhe mostro o que penso de Zhenkri e dos covardes sobre quem ele reina.
– Que sabe você de covardia? Decapitou um capitão à traição, em uma luta de mãos nuas.
– Seu capitão pediu a espada a um dos soldados para me apunhalar. Eu apenas a tomei e entreguei-a de um modo que ele não gostou.
– Está zombando da morte de Dinak? Aquele homem me devia. Ia me tirar daqui.
– Na Ciméria os homens não esperam que outros homens tornem suas vidas mais fáceis.
A resposta vem na forma de mais um golpe. Os lábios de Conan sangram. Em silêncio, enquanto é levado da cela, Conan sentencia Plácido à morte.
****
Conan é conduzido acorrentado por longos corredores. Quanto mais avança, mais suntuoso o ambiente se torna. Na sala do trono, nobres reunidos em pequenos grupos conspiram. O estrépito das maciças portas de madeira sendo fechadas é o sinal para que o silêncio se estabeleça. Conduzido por três guardas, Plácido entre eles, Conan adentra o recinto.
Pouco afeito às lidas da corte, é o próprio Rei Zhenkri quem enumera os crimes de Conan.
- Conan da Ciméria, está aqui para ser julgado por seus muitos crimes. Segundo Baldas, membro da guarda, você foi responsável direto pela morte de soldados de Athros. E pela morte de outros três, enviados para capturá-lo. Assassinar aqueles que protegem as muralhas da minha cidade é um crime intolerável, e por ele o condeno à morte pela forca. Tem algo a dizer a seu favor, Conan?
– Pouco sei a respeito dos costumes dos homens civilizados, mas esperava que alguém como o Rei Zhenkri, que tomou o trono pisoteando o crânio daqueles que eram fracos demais para manter o poder, entenderia as necessidades de um homem no campo de batalha.
As palavras geram desconforto entre os nobres perfumados. O modo como Zhenkri humilhou tradições e trespassou com sua espada os costumes ainda não foi de todo superado.
- Maneja as palavras melhor do que eu esperava, cimério. Mas não tão bem a ponto de fazer com que Zhenkri volte atrás em sua decisão. A forca é seu destino.
Neste momento, o conselheiro-emérito do rei, de nome Athicus, adianta-se e pede a palavra.
- Magnânimo Rei Zhenkri, nenhum dos aqui presentes ousaria questionar sua decisão. Entretanto, olhe para este bárbaro. Sua ferocidade deu cabo de três de nossos melhores homens. Estavam eles a cavalo, de armadura, espada e escudo. E esse cimério lutou com uma adaga. Apenas após um combate feroz pôde ser dominado pelos quatro cavaleiros restantes. Não lhe parece, magnânimo, que esse é o tipo de homem que precisamos nas nossas fileiras na investida contra Polopponi? O crime do Conan é imperdoável, mas sua majestade, que também se criou coberto do sangue dos inimigos, não considera que aproveitar a força desse cimério, fazendo-o lutar por Athros, não é a punição mais justa a ser dada a um guerreiro?
Zhenkri ouve com atenção. Ao final da exposição de Athicus, procura nos olhos dos presentes o efeito das palavras do conselheiro. Por fim, decreta.
- Conan da Ciméria, sua sentença é a morte. Morrerá no campo de batalha, lutando por Athros, como fariam aqueles cuja vida você tirou.
****
A madrugada é silenciosa nas masmorras. Aqueles que já esqueceram como é a vida além das grades sabem que gemer e lamentar apenas convida à fúria guardas impiedosos. Não são súplicas que atraem o olhar de Conan, mas o bruxulear de uma tocha. Nas mãos de um assustado pajem, a chama tremula mais do que o normal. O jovem acompanha Athicus, conselheiro-emérito de Zhenkri.
- Me perguntava quando viria cobrar pelas suas belas palavras na sala do trono.
– É astuto, para um selvagem. Mas não tem em seu poder nada que eu queira, bárbaro.
– Do que se trata, então?
– Sei que esteve recentemente em contato com um estrangeiro do oeste. Asketh.
– Ele está morto.
– Não me importa ele, e sim algo que há em sua casa. Um medalhão.
– Feitiçaria!
– Algo assim. Nada que sua mente rudimentar possa compreender. Sei que esteve lá. Quero que volte esta noite e me traga o medalhão. Asketh o escondia em um porão.
– Não sei de porão nenhum. E estou cansado de fazer acordos com feiticeiros.
– Que opções têm você? Apodrecer aqui para sempre, ser apunhalado por um dos guardas, ou morto no campo de batalha, conforme a sentença de Zhenkri. Nenhuma delas melhor do que o que ofereço.
– Como pode saber que não fugirei na primeira oportunidade?
– Porque mesmo um selvagem como você é capaz de respeitar a própria palavra. E porque, caso me traia, eu tomarei o cuidado para que seja a última coisa que fará.
– Pois bem, me solte eu lhe trago o tal medalhão.
– Em uma hora alguém abrirá a cela e deixará o caminho livre até a saída. Não se desvie, retorne o mais rápido que puder, e não sofrerá mal algum. Eu ficarei em dívida com você e, quem sabe, possa favorecê-lo ainda mais aos olhos do rei.
Antes de deixar a masmorra, Athicus ordena que Plácido destranque a cela do bárbaro e deixe livre o seu caminho. Diante da contrariedade do soldado, Athicus mal contém sua fúria. Sugere, por fim, que Plácido acompanhe Conan discretamente. Se o fizer sem erros, poderá conquistar um aliado muito mais importante do que um mero capitão da guarda.
****
Assim que deixa as imediações do palácio de Zhenkri para mergulhar na madrugada de Athros, Conan dirige-se até a taverna onde hospedou-se durante o breve momento de tranquilidade desfrutado na cidade. Valiatti, o proprietário, concorda em guardar o fruto de uma possível pilhagem. O taverneiro cede uma velha espada a Conan, afinal, “nunca ouvi falar de um trabalho na madrugada que rendesse muito ouro sem a necessidade de uma lâmina”.
A caminho da residência de Asketh, o cimério percebe que alguém acompanha os seus passos. Esgueirando-se pelas sombras de uma rua vazia, Conan vê a aproximação de Plácido, que perde sua pista por um instante. Porém, a lâmina da espada recém-adquirida reflete a luz de uma tocha distante. É o suficiente para que o soldado recue e evite o ataque de Conan, que sai das sombras em uma investida mortal. Antes que possa sacar sua arma, Plácido é dominado pelo bárbaro. Com o aço contra a garganta, o soldado nada pode fazer além de colaborar.
- Que faz atrás de mim, cão? Foi aquele maldito Athicus que o mandou?
– Sim!
– Acaso ele pensa que vou precisar de sua ajuda?
– Não sei o que pensam os nobres. Por mim, você morreria na masmorra.
– Até que tem coragem, especialmente para alguém com uma espada no pescoço…
– Só preciso acompanhá-lo e garantir que tudo dê certo. Se eu falhar, serei morto. Pode ser agora, por você, ou mais tarde, por algum feitiço de Athicus. Não faz diferença.
– Se apenas precisa me acompanhar, que assim seja. Apenas não fique no meu caminho. Vi objetos que poderiam comprar cidades inteiras na casa de Asketh. Quem sabe algo lá sirva para que você deixe de obedecer a ordens de reis e feiticeiros.
Antes que sua conversa desperte atenção indesejável, os dois partem juntos até a residência de Asketh.
****
Enquanto Plácido observa, Conan usa da agilidade adquirida nas montanhas da Ciméria para escalar uma parede e atingir altura que lhe permita observar o pátio da residência de Asketh. Não há sinal de guardas, e a única iluminação vem de uma tocha ao lado da porta principal, que se encontra entreaberta.
Saltando em silêncio até o gramado, Conan vasculha a construção em busca de uma entrada externa para o porão que Athicus afirmou existir. Sem indícios, estende a averiguação para o interior do palacete. Seu intento é interrompido pelos ruídos produzidos por Plácido, que sofregamente escala o muro que separa a área interna da rua.
Antes que consiga repreender o soldado, Conan é acometido por fortes dores no abdômen, como se uma adaga em chamas lhe penetrasse as entranhas. Ainda aturdido, e desconfiado da comida que recebeu na prisão, o bárbaro ordena que Plácido faça silêncio, enquanto se dirige até a entrada da residência.
Além das portas, jaz um corpo. Trata-se de um dos guardas de Asketh. Uma ferida na nuca ainda vertendo sangue denuncia a morte recente. Conan barra a porta para garantir que o assassino não tenha rota fácil de fuga.
- Sua saída passa por mim, cão!
Avançando na direção da sala onde Asketh o recebeu, Conan encontra, agachado atrás de uma mesa completamente revirada, o assistente do kithanês, Dalius. Nas mãos leva uma adaga ensanguentada, de pouca valia contra a espada do cimério.
- Saqueando os pertences de seu senhor, abutre?
– Não… Sim… Asketh está desaparecido. E sem o ouro que me paga, nada tenho.
– Leve o que quiser. Apenas me interessa o que ele guardava no subterrâneo da casa.
– De que está falando?
– Asketh escondia o mais valioso de seus tesouros embaixo da terra, como fazem os mortos da Stygia.
– Nada sei disso. Mas ele passava muito tempo nesta sala. É possível que a entrada esteja aqui, em algum lugar.
O bárbaro recomenda a Plácido que leve alguns dos pertences do feiticeiro morto. O interesse do soldado recai sobre uma estátua de cerca de dois metros de altura – uma gárgula sobre um pedestal. Seus olhos são grandes e brilhantes rubis.
- Não toque nisso, soldado. Mesmo o meu mestre, que conhecia os segredos sombrios de terras distantes, temia o poder dessa imagem maligna.
Saudoso do tempo em que feiticeiros e seus truques eram objeto de histórias contadas ao redor de fogueiras, tão fantasiosas quanto inocentes, Conan encerra qualquer poder contido no ídolo ao despedaçá-lo no chão. Os grandes rubis rolam entre lascas de pedra. Dalius mal contem um gemido, enquanto Conan e Plácido ficam, cada um, com um dos olhos da gárgula.
Só então o bárbaro encontra as marcas de um alçapão.
****
Sob o piso, Conan percorre uma passagem estreita amparada por estacas. Dez passos além do alçapão há um baú. Empunhando uma tocha, Dalius ilumina o caminho do bárbaro. Plácido permanece junto da abertura no chão, observando.
Um golpe de espada vence a tranca, revelando pergaminhos, ervas raras e o medalhão descrito por Athicus. Tomando a joia, Conan prepara-se para fazer o caminho de volta. Entretanto, não é mais Plácido que guarda a passagem. Um ser de rocha pura, cujas feições vagamente lembram as do soldado de Zhenkri, barra o seu caminho. Seu único olho de rubi brilha cheio de ódio assassino.
O ser de pedra avança golpeando Dalius, cujo crânio é partido instantaneamente. Conan aproveita a brecha e brande a lâmina, apenas lascando o torso de seu adversário. Movido por feitiços ancestrais, a criatura agarra Conan, estrangulando-o. A força do bárbaro não pode conter os músculos e tendões de pedra. A espada lhe escapa dos dedos.
Para a surpresa do cimério, o abraço mortal é interrompido assim que a estátua viva percebe, caído da algibeira de Conan, um rubi que agora repousa no solo de terra batida. Enquanto recupera o fôlego e se esgueira na direção da saída, o bárbaro ouve um urro de dor e satisfação. Empurrando o rubi contra a órbita antes vazia, a gárgula agora lança um olhar rubro de redobrada perversidade.
Conan golpeia as estacas e inicia um desabamento. Toneladas de terra deslocam-se, comprometendo a estrutura da residência de Asketh. Conforme as fundações são afetadas, é uma questão de tempo até as paredes ruírem. Por muito pouco aquela não se torna a cova do cimério.
****
Conan mal tem forças para voltar ao palácio de Zhenkri. Novamente, não encontra obstáculos em seu caminho. Ao fechar a grade atrás de si, seu corpo inteiro sofre de dores e tremores incontroláveis. Em questões de minutos, Athicus está diante dele.
- Trouxe o que lhe pedi, Conan?
– Maldito feiticeiro. Veneno…
– Apenas algo que pudesse garantir a sua lealdade. Veja, tenho aqui comigo o antídoto.
– Passe para cá esse frasco e eu lhe entrego o medalhão.
– Prefere que eu aguarde sua morte e entre aí para pegar o que me pertence?
Ensandecido pelo ódio, Conan arremessa a espada que a escuridão da cela escondia. A lâmina, dirigida ao coração de Athicus, erra o alvo. A guarda choca-se contra as grades e interrompe seu voo mortal.
- E eu que admirei sua sagacidade logo cedo, Conan. Quanta decepção…
– Tome, maldito. Leve o seu medalhão.
– Ah… Sim… Aqui está o seu antídoto. Apresse-se em tomá-lo. Não gostaria que você morresse, nem que diga que nós, homens civilizados, não cumprimos com nossa palavra.
Após esvaziar o frasco, Conan cai em um sono sem sonhos.

3
Contos / Conan 1 - O Deus Sombrio da Cidade Perversa
« Online: Janeiro 16, 2015, 04:45:40 pm »
O odor azedo do vinho barato mistura-se ao do suor exalado pelo corpo de homens e mulheres. Conan bebe o último caneco que suas moedas podem pagar. Os olhos azuis observam o movimento de quadris luxuriantes cobertos apenas pela transparência de véus. Não estivesse esperando por Jenna, o bárbaro certamente provaria dos prazeres de uma de suas colegas.
No balcão, Abuletes seca canecas que em breve receberão mais vinho. Com seus braços poderosos, Conan afasta bêbados, ladrões e todo o tipo de escória que habita o Deserto, a área mais infame de Shadizar.
- Onde está Jenna?
– Acalme-se, bárbaro. Em breve ela vai chegar. Sua cama será aquecida esta noite.
Jenna, porém, não aparece. Acostumado a ser o senhor de sua própria vida, o jovem cimério se enfurece com o que imagina serem os caprichos da meretriz que tomou por amante. Uma rápida conversa com Abuletes e as mulheres que trabalham ali revela que Jenna vinha tendo problemas com um ex-amante: Feliks.
O tipo de cão covarde a quem Conan ensinará uma lição valiosa caso tenha tocado as patas em sua mulher.
****
Diante da porta de Jenna, uma velha encarquilhada grita palavras pouco lisonjeiras.
- Rameira! Meretriz! Saia desse buraco e pague o que me deve.
– O que há, velha?
– Quem é você? Um dos homens que a rameira traz à minha casa?
– Eu sou Conan. E essa não é sua casa.
– Sim, ela é. Jenna me deve 10 moedas pelo aluguel.
– Tome essas quatro. São as últimas que tenho.
– Por que está fazendo isso?
– Para que pare de gritar e suma da minha vista. Quando tiver mais moedas, darei a você.
Dentro da casa de parede e chão de barro, Conan se depara com o cenário de uma briga. Ainda que não exista sangue, a bagunça e os objetos quebrados não deixam dúvidas a respeito do que houve ali.
****
Feliks teve algum sucesso recente na vida, pensa Conan. O ouro extorquido de mulheres parece ter servido para pagar a casa no Distrito dos Mercadores. À espreita, o bárbaro aguarda a chegada do maldito. Um movimento às ocultas, porém, desperta seus olhos aguçados. A luz bruxuleante de uma vela ou tocha pode ser divisada através das frestas da porta.
Movimentando-se como uma pantera, Conan dirige-se até a janela lateral da residência. Usando sua espada como alavanca, rompe a tranca e com um salto entra na sala de poucos móveis. A única abertura leva a um quarto, onde, no chão, está uma tocha recém-extinta.
Antes que seus olhos possam acostumar-se completamente à tênue iluminação da lua, um grito é emitido das trevas. De punhal nas mãos, um homem avança sobre Conan. O golpe apenas perfura sua túnica rústica. Em resposta, o bárbaro atinge-o no rosto com as costas da pesada mão. Retrocedendo para equilibrar-se, o adversário sorrateiro finalmente pode vislumbrar o porte poderoso do bárbaro, a larga lâmina que carrega e a maneira como faíscam selvagens os seus olhos azuis na escuridão. Abaixando o punhal, Demétrius desiste da luta.
- Pode ficar com tudo. Não desejo lutar.
- Acenda uma tocha. Quero ver o seu rosto de rato sorrateiro!
Assim que a luz revela o ambiente, Conan percebe sob a cama de Feliks um véu que já vira Jenna usar. O tecido ainda carrega seu perfume. A breve distração é o suficiente para que os dedos rápidos de Demétrius se dirijam a pedaços de osso cortados em quadrados e marcados com pontos pretos, que repousam sobre um pergaminho em uma escrivaninha.
- O que são esses ossos?
– Um tipo de moeda. São usados na Arena de Zenon. Para apostas.
– E esse papel, o que está escrito nele.
– É uma carta. Está assinada por Fafnir, líder do Culto do Deus Sombrio. Diz que Feliks ainda deve parte do valor cobrado dos novos membros.
– Deus Sombrio, é? Como se precisasse de muito para homens civilizados temerem a escuridão.
– Não se engane, bárbaro. Fafnir é um homem poderoso. E perigoso.
– Veremos!
****
De volta ao Deserto, no caminho até a Arena de Zenon, Conan e Demétrius são interrompidos por um velho. Das sombras de um beco ele sai, tão encurvado que precisa virar o rosto para olhar nos olhos de seus interlocutores. Um pedaço de pau toscamente entalhado lhe serve de apoio. Suas roupas são as de um maltrapilho.
- Aqui, aqui! Por uma moeda.
– Não tenho moedas para lhe dar.
– Não, não. Não quero que me dê. Estou oferecendo algo.
– De que se trata, velho. Fale logo com essa sua boca imunda.
– Ali, minha filha. Por uma moeda. Ela é apertadinha. E é abestalhada. Não entende e não se importa.
Demétrius parece não dar atenção àquilo, mas Conan fica atordoado diante da proposta que apenas teria lugar nas ruas de Shadizar. Mais adiante, encostada na parede, está uma mulher que recém deixou de ser criança. Veste farrapos. Seu rosto de traços grosseiros emoldura um sorriso idiota de dentes podres. Mal há sinal de inteligência em seus olhos.
- Cão zamoriano, oferece a filha a estranhos em um beco?
– Ora, se não a deseja, cale-se! Certamente encontrarei homens dispostos a pagar por ela.
Conan leva a mão ao aço. O desejo de punir aquele horror lhe vem como um reflexo. Sua mão é detida por Demétrius.
- Se matar o velho, quem cuidará da filha? Você?
Incapaz de responder, Conan embainha a espada e se afasta, ruminando o que a civilização acaba de lhe ensinar.
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A Arena de Zenon fica no subsolo de um pequeno prédio, no coração do Deserto. No térreo há apenas um balcão onde ouro é trocado pelas fichas de osso que servem às apostas, e dois guardas mal-encarados. Lá embaixo o ar é pesado e fede a suor e sangue. Cerca de cinquenta homens, entre apostadores, combatentes e recolhedores, se espremem ao redor de uma arena delimitada por barras de ferro que vão quase até o teto.
Em poucos minutos, Conan, com o auxílio de Demétrius, sela um acordo. O cimério precisa vencer Amboola, o gigante kushita que já esmagou mais de vinte adversários. Sua presença na arena está inibindo apostadores. Conan travará um luta de bastões em troca de informações a respeito de Feliks e algum ouro.
As sandálias de Conan grudam no chão. O sangue que vem sendo derramado há muito pintou o barro. Girando seu bastão com destreza, Amboola avalia o adversário. Enquanto o kushita se parece com a coluna inamovível de um templo, o cimério, de cintura delgada e peito maciço, movimenta-se como uma pantera.
O primeiro golpe de Conan é rápido e leve, buscando revelar a velocidade de Amboola. Confiante, o negro subestima a força do adversário e lança um ataque devastador, mas lento. Conan se aproveita e atinge Amboola pela primeira vez, nas costelas. A plateia reage com gritos selvagens.
Restabelecendo-se, e um pouco surpreso – acabara de deixar a arena ileso –, o kushita avança mais cauteloso, mas sem desfazer o enorme sorriso sarcástico. Inúmeros golpes são trocados. A carne e os ossos de ambos são submetidos a um teste que faria ursos sucumbirem. Perto do final, quando a única coisa que se ouve naquele subterrâneo brutal é a respiração pesada dos combatentes extenuados, um elemento inesperado é adicionado.
Por sobre um vão das grades que delimitam a arena, uma maça de ferro é jogada. Conan e Amboola encaram-se como o fariam serpentes um instante antes do bote. O kushita atira-se na direção da arma, enquanto Conan tenta afastá-lo com um chute. Mal localizado, o golpe não é suficiente para desequilibrar o gigante, que se ergue com a maça nas mãos. Seu sorriso retorna, e os dentes brancos surgem tingidos de vermelho.
Conan sabe o que acontecerá em seguida. Amboola é um guerreiro orgulhoso, cuja reputação foi arranhada pelo estranho nortista que veio ameaçar seu reinado na arena. A maça corta o ar de baixo para cima, movida por uma força capaz de arremessar um homem a quatro metros de distância. Conan sai do caminho no último momento, afastando o tronco apenas o suficiente para livrá-lo da morte certa. Firmemente plantado no chão, o cimério gira o quadril e desfere um chute devastador nas costelas feridas de Amboola. O kushita tomba como um saco furado.
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O vinho jorra através da garganta de Conan, misturando-se ao sangue dos lábios feridos. Os dentes rasgam a carne de carneiro enquanto ele houve Abuletes.
- Más notícias são essas, Conan! Tudo o que envolve o culto ao Inominado Deus Sombrio é mau.
– Os homens na Arena de Zenon benziam-se como velhas crédulas toda vez que ouviam esse nome.
– Eles são uma religião formada por homens cruéis.
– Que quer dizer?
– Eles fazem cerimônias estranhas, em noites como esta. Dizem que precisam aplacar a fúria de seu deus para que ele não destrua o mundo.
– Que grande bobagem. Crom, de sua montanha, esmagaria esse deus de covardes.
– Que esse Crom o ajude, então.
– Ela já ajudou, quando me deu força para matar. Em breve, esses cultistas vão descobrir o resultado da benção de Crom.
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Dirigindo-se sozinho até o Distrito dos Templos – Demétrius preferiu não arriscar-se contra as maldições de sacerdotes –, Conan logo vislumbra as construções imponentes erigidas em nome de deuses de toda a espécie. Bel, o deus dos ladrões; Azoth, que em seu sono guarda os mortos; Morath-Aminee, o devorador de almas; Omm e Zath, cultos rivais que adoram aranhas gigantes; Ong, deus da dor e da redenção; Shan, o semideus da guerra; e Zandru, senhor dos Nove Infernos.
Apesar da multidão que se desloca pelas ruas, o local é silencioso e pacífico. O perfume de dezenas de incensos impregna o ar que os sábios respiram durante discussões a respeito da existência e seus significados. Como gado na direção do abatedouro, a multidão dirige-se ao Templo do Deus Sombrio, uma torre encimada por um minarete de ouro e cercada por degraus que levam às portas principais da nave central. Uma luz dourada emana do interior. Sobre as portas, joias e vidro roxo e vermelho mostram imagens de sacerdotisas de tempos imemoriais.
Conan desvia-se e dirige-se até uma ruela menos movimentada. Ali, encontra o esbaforido servo retardatário do Deus Sombrio. Sem maiores dificuldades, toma-lhe o manto e a faixa vermelha e roxa, deixando-o amarrado em um beco. Que os ladrões o encontrem antes dos ratos…
Misturado aos últimos fiéis que adentram o templo, Conan pisa os carpetes verdes e observa os adornos azuis que decoram o interior. A pintura do teto simula uma noite de lua cheia. Alcovas laterais recebem os viciados em lótus e haxixe em busca de visões religiosas. Quando o bárbaro senta-se, Fafnir, o sumo sacerdote, chega ao ápice de seu discurso repleto de metáforas incompreensíveis. Servos perfilam-se ao redor dos fiéis e começam a puxar correntes que movimentam um painel superior, revelando o interior oco da torre, através do qual se vislumbra o minarete.
Em companhia de dois homens, Fafnir deixa o salão principal e dirige-se a uma escadaria que se estende pela parte interna da torre. Aproveitando-se da distração da multidão em êxtase, e já ciente de quem será utilizada para aplacar a fúria do deus, Conan parte atrás do sumo sacerdote.
Espreitando na escuridão das escadas, o bárbaro testemunha o que parece ser a preparação de algum tipo de rito religioso. Antes que aquilo vá adiante, ele arremessa uma adaga contra as costas de um dos sacerdotes. O homem grita, em agonia, enquanto Conan avança com o aço nas mãos, desferindo um golpe que faz tombar o segundo sacerdote. Seus olhos selvagens voltam-se na direção de Fafnir.
- Cão, onde está Jenna?
– Selvagem maldito, não sabe o que fez?
A resposta de Conan é dada por seus braços gigantescos, que erguem Fafnir como se ele fosse uma folha. Aos gritos, o líder do Culto ao Inominado Deus Sombrio é devolvido aos fiéis, trinta metros abaixo. Preparando-se para enfrentar a horda que sobe as escadas, Conan ouve gritos por socorro. É Jenna, presa a uma parede atrás de um painel móvel. Assim que parte as correntes e sai da alcova levando a amante consigo, os cabelos da nuca de Conan se eriçam.
Uma figura enorme encobre parte da lua em seu voo perverso. O som de asas gigantescas ressoa na madrugada. Conan controla seu pavor diante daquele horror alado. Firmando as pernas e com o aço em mãos, ele espera pelo confronto com o próprio Deus Sombrio.
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A coisa com cheiro de sangue velho experimenta o aço de Conan, que atravessa um de suas asas membranosas. O guincho agudo fere seus ouvidos. Sangue negro do Deus Inominado jorra sobre os braços e o peito do bárbaro, que aproveita o pouco espaço do minarete para manter-se afastado das garras e dentes pontiagudos que avançam sem cessar. Encharcada, a espada arranca mais um naco de carne. A divindade ferida agora busca afastar-se. Sua única rota de fuga é o vão que desce até a nave central do templo. Conan não hesita um segundo antes de atirar-se atrás da coisa.
A essa altura, poucos fiéis permaneciam ali. A queda de Fafnir, seguida da visita assombrosa do Deus Sombrio, fez com que quase todos deixassem o templo, em pânico. Os que restaram testemunham a agonia de sua divindade, assolada pelos golpes constantes do cimério. Porém, nem mesmo a força de Conan consegue sobrepujar o voo caótico, e o bárbaro é atirado contra os bancos.
Ferido e ciente de que tem apenas uma chance de atingir seu adversário antes que ele mergulhe para um ataque fatal, Conan toma impulso sobre os bancos e salta. Suas pernas poderosas o elevam acima da altura de dois homens, em um encontro aéreo devastador. A espada corta do ombro até a pata inferior do horrível morcego. O ser gigantesco tomba, debatendo-se sobre o próprio sangue escuro.
Com um golpe derradeiro, Conan encerra a agonia de guinchos sobrenaturais. O peito aberto da criatura expõe, aos seus últimos fiéis, o coração morto de um deus.

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Diários de Campanha / Numenera - The Wonder Weird
« Online: Janeiro 09, 2015, 05:09:55 pm »
Numenera é um cenário de RPG. Nele, uma civilização em estágio medieval de evolução existe em um planeta Terra bilhões de anos no futuro. Pelo menos oito civilizações nasceram e desapareceram, e sobre os resquícios de sua existência vivem os seres humanos do presente, constantemente se deparando com artefatos tecnológicos ultramodernos que simplesmente não são capazes de compreender ou distinguir de magia: a Numenera.

Aqui eu irei narrar as histórias de um grupo de personagens nesse cenário de estranhas maravilhas.

Personagens:
Czyran Eczos, um Nano Mutante que Subtrai Energia
Mark, um Glaive Durão que Defende-se com Maestria
Stephen Dedalus, um Jack Inquisitivo que Funde Máquinas à Mente
Zippack Ranzz, um Jack Gracioso que Doma o Relâmpago

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