Autor Tópico: Resenha - In the year of the Dragon  (Lida 1140 vezes)

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Resenha - In the year of the Dragon
« Online: Fevereiro 24, 2015, 10:58:12 am »


In the Year of the Dragon é um jogo para 2 a 5 jogadores, com 90 minutos de duração em média, onde cada jogador representa o senhor de uma província do império chinês do século X, interessado na prosperidade de sua terra durante o ano do dragão (o jogo possui 12 rodadas, uma para cada mês). Mas não se sintam encorajados por esta descrição pomposa, porque o tema é bem ralo.

Curiosidade: Ironicamente, o ano do dragão no calendário chinês é descrito como uma época de boa sorte, mas vocês verão que neste jogo haverá tanta desgraça acontecendo que ninguém irá considerar este ano como um período de bom agouro.

Componentes: O jogo tem um tabuleiro central, que apresenta cinco áreas importantes, visualizadas de cima para baixo na imagem a seguir:

 

- Nas bordas superior e inferior do tabuleiro, há o traçado de vitória que marca quanto jogador possui.
- No alto da ilustração, podem-se ver peças quadradas que são os trabalhadores, que ficam armazenados naquela área para recrutamento.
- No meio do tabuleiro, há um segundo traçado numérico que é chamado de people track. Além dos marcadores de pontos de vitória, cada jogador tem um marcador para colocar neste traçado e este mede a ordem de iniciativa de cada jogador no turno. O avanço neste traçado acontece geralmente quando se recruta trabalhadores.
- Ainda no meio do tabuleiro, temos sete peças retangulares que são as peças de ação, que os jogadores poderão ativar a cada rodada, utilizando as peças de dragão que possuem (também exibidos nesta ilustração).
- Finalmente, na área inferior pode-se visualizar uma sequência de peças quadradas que são os eventos. Com exceção dos dois primeiros eventos (que não tem efeito algum), os demais são sorteados e colocados em ordem no tabuleiro. Das doze peças de eventos, oito têm efeito negativo.

Cada jogador começa com 6 yuans (dinheiro do jogo), nenhuma peça de arroz ou peça de fogo de artifício, mas pelo menos já tem dois trabalhadores e dois palácios de dois andares. As peças de palácio são feitas para serem encaixadas uma em cima da outra (tornando o palácio mais alto, até três andares) ou alocadas separadamente, significando palácios diferentes. 


Cada andar de um palácio pode abrigar um trabalhador.


Finalmente, cada jogador tem um baralho de trabalhadores de sua cor. Cada baralho tem 11 cartas, para serem utilizadas em todas as rodadas do jogo, exceto a última. Das 11 cartas, duas são coringas e as outras nove referem-se aos nove tipos de trabalhadores existentes no jogo.

Mecânica : O jogo tem 12 rodadas, sendo que cada rodada possui 4 fases. No final da 12ª rodada, quem tiver mais pontos de vitória vence. Vamos às fases:

I – Fase das ações: Em ordem de iniciativa, cada jogador escolhe e executa uma ação. Cada jogador tem um dragão para marcar que peça de ação ele deseja.

Toda rodada, as peças de ação são sorteadas em grupos, dependendo do numero de jogadores. Isso é importante porque se alguém quiser ativar uma peça que já foi ativada naquela rodada por outro jogador ou se ele quiser ativar uma peça que esteja no mesmo grupo de outra peça ativada na rodada, será preciso gastar três moedas. Essa é uma das razões que torna a ordem de iniciativa tão importante. Às vezes, certas ações são valiosíssimas em uma rodada e um jogador que aja tardiamente só poderá ativá-las se tiver dinheiro.


No grupo de ações mais à direita (coleta de arroz ou produção de livro), o jogador vermelho produziu um livro. O jogador amarelo jogou depois e decidiu colher arroz. Como a peça de colheita foi sorteada no mesmo grupo da peça do livro, ele precisará pagar 3 yuan.


As ações possíveis são:
- Obter 2 yuans
- Obter uma saca de arroz
- Obter um fogo de artifício
- Produzir um livro, que dá imediatamente 1 ponto de vitória
- Construir um andar de palácio
- Avançar uma casa no traçado da ordem de iniciativa (people track)
- Comprar 1 privilégio pequeno por 2 yuans ou um privilégio grande por 6 yuans. Privilégios concedem pontos de vitória no final da rodada.



Com exceção da compra de privilégio, todas as ações descritas podem ser otimizadas com trabalhadores que o jogador já possui.  Ao executar uma ação, observa-se o ícone da peça de ação e checa se o jogador possui um ou mais trabalhadores que apresentam este ícone. Por exemplo, a ação de construção de palácio tem o símbolo de um martelo na peça. Se no momento de escolher essa peça o jogador já possuía dois construtores (são trabalhadores que tem o símbolo de um martelo), com uma ação de construção o jogador ergue TRÊS andares de palácio.

Observação: Um jogador pode optar por não fazer ação nenhuma e, em troca, completar sua reserva de dinheiro para 3 yuans (ou seja, se ele já tinha 1 yuan, ele ganha duas moedas). Isto é importante quando o jogador quiser se assegurar que irá fazer uma ação na próxima rodada ou quer minimizar as perdas do evento do tributo imperial (v. mais abaixo).

 II—Fase dos trabalhadores: Novamente, em ordem de iniciativa, cada jogador gasta uma de suas cartas e pega o trabalhador indicado na carta (ou escolhe, se esta for um coringa).  Como há um número limitado de cartas, certos trabalhadores podem ser muito cobiçados em certos momentos do jogo e não sobrar nenhum quando o jogador retardatário quiser usar a carta daquele trabalhador.

 Igualmente importante, é necessário que haja espaço nos palácios. Cada andar de palácio abriga um trabalhador. Se os palácios do jogador já estiverem lotados, ou ele descarta a carta e não pega trabalhador nenhum ou “mata” um trabalhador prévio e usa a carta para recrutar o trabalhador que deseja. Se o jogador não expandir seus palácios, ele terá que “matar” ou não contratar trabalhadores rodada após rodada, por isto sua construção é essencial!

Há nove tipos de trabalhadores. Destes, seis são relacionados às ações já descritas e aumentam o poder delas quando forem escolhidas. Um erro muito comum entre os novatos é achar que ao pegar um destes seis trabalhadores, obtém-se o benefício de seu símbolo, quando na verdade ele só potencializa a ação. Por exemplo: você não ganha sacas de arroz ao recrutar um agricultor, mas enquanto ele estiver vivo em seu palácio, toda vez que ativar a ação do arroz, receberá sacas de arroz adicionais de acordo com o número destes ícones em seu agricultor.

Toda peça de trabalhador também tem um número. Quando se recruta um trabalhador e o aloca em um palácio, o jogador imediatamente avança no traçado da iniciativa (people track) um número de casas igual ao valor da peça. Com exceção do construtor, da cortesã e do coletor de impostos, todos os trabalhadores possuem duas versões: o jovem e o velho. O trabalhador jovem tem menos ícones em sua peça (significando que sua habilidade é reduzida), mas tem um valor mais alto (significando que ao recrutá-lo, o jogador avançará mais no traçado de ordem de iniciativa). O trabalhador velho é o oposto e este é um dos dilemas do jogo: devo recrutar um trabalhador que produza mais ou priorizo um trabalhador mais fraco, mas que me deixará mais na frente na ordem do turno?



Os nove tipos de trabalhadores são:
- Monge: Concede pontos de vitória no fim do jogo
- Construtor: Ergue um andar de palácio extra ao executar a ação respectiva
- Agricultor: Colhe saca de arroz extra ao executar a ação respectiva
- Curandeiro: Evita mortes no evento da Peste.
- Soldado: Concede mais avanço na ordem de iniciativa ao executar a ação respectiva e ajuda contra o evento da invasão mongol.
- Estudioso: Concede pontos de vitória extras ao executar a ação respectiva (produção de livro)
- Coletor de impostos: Obtém três yuans adicionais ao executar a ação respectiva
- Fogueteiro: Concede peças de fogos de artifício adicionais ao executar a ação respectiva
- Cortesã: Gera um ponto de vitória adicional no final de cada turno.

III – Fase dos eventos: É aqui que as coisas se complicam. Não bastando ter que brigar com seus oponentes pela execução de ações e recrutamento de trabalhadores, nesta fase são ativadas as peças de eventos, que geralmente são negativas e provocam grande perda de trabalhadores para quem não se planejou.

Para não deixar dúvidas: trabalhadores VÃO morrer. Considerando que cada jogador começa com 2 trabalhadores e é possível recrutar um máximo de 11 no jogo inteiro, teoricamente é possível terminar o jogo com 13 trabalhadores, desde que não perca nenhum trabalhador em nenhum evento  e sempre haja espaço nos palácios para alocá-los.  Mas isto é absurdamente difícil e depende muito da configuração dos eventos e das ações dos outros jogadores.

Há seis tipos de eventos no jogo, cada um acontecendo duas vezes no jogo, sendo que eles são sorteados e revelados no início da partida.



- Paz: nada acontece, são os únicos eventos fixos no jogo. As peças ocupam os espaços da rodada 1 e 2, para dar tempo para os jogadores se prepararem pros desastres vindouros.
- Tributo imperial: cada jogador precisa pagar 4 yuans. Para cada Yuan que não foi pago, perde-se um trabalhador.
- Festival do dragão: Este evento não inflige perdas de trabalhadores. Quem tiver mais peças de fogos de artifício, gasta a metade deles (arredondado para cima) e ganha 6 pontos de vitória. Quem estiver em segundo lugar também perde a metade e obtém 3 pontos.
- Peste: Cada jogador perde 3 trabalhadores MENOS 1 trabalhador por cada ícone de tigela que seus curandeiros possuírem no total. Ou seja, se um jogador tiver dois curandeiros somando três tigelas, ele é imune a este evento.
- Seca: Cada palácio que tiver abrigando pelo menos um trabalhador consome 1 saca de arroz. Cada palácio que não consumir arroz perde um de seus trabalhadores.
- Invasão mongol: Cada jogador ganha 1 ponto de vitória por símbolo de elmo presente em seus soldados. O jogador que tiver menos símbolos de elmos perde um trabalhador.

IV - Fase da decadência e pontuação: Neste momento, checa-se se algum jogador tem algum palácio que está sem trabalhador nenhum.  Se isto ocorrer, aquele palácio é considerado decadente e perde-se um andar (se o palácio só tiver um andar, o jogador perde o palácio). Checada a decadência, é o momento de pontuar a rodada. Como isto ocorre doze vezes na partida, os jogadores precisam sempre pensar em formas de aumentar sua pontuação nesta fase ou correr o risco de ficar atrás e não conseguir se recuperar mais.

Nesta fase, cada jogador ganha:

+1 ponto por palácio individual (a altura do palácio é irrelevante)
+1 ponto por cortesã que tiver
+1 ponto por privilégio pequeno que possuir
+2 pontos por privilégio grande que possuir

Fim de jogo: Após a fase da pontuação da 12ª rodada, o jogo termina e cada jogador recebe uma pontuação de bônus.

+2 pontos por cada trabalhador que sobreviveu ao Ano do Dragão
+2 yuans por cada peça de arroz ou fogo de artifício que sobrou
+1 ponto por cada 3 yuans que possuir

Finalmente, se o jogador tiver monges, verifica-se cada palácio que possua monges e conta-se o número de símbolos de Budas residentes.  Daí multiplica-se este número pela altura do palácio (lembrando que o palácio não pode ter mais de três andares) para determinar quantos pontos de vitória são concedidos.  Por exemplo, um palácio de três andares onde residem dois monges que totalizem 4 símbolos de Budas concederá ao jogador 12 pontos de viotória no fim do jogo.

Critérios de avaliação:

Apelo a não boardgamers: *. Apesar do tema oriental e os componentes serem um pouco exóticos, não há muito o que atrair fora da mecânica excelente. Inclusive eu não recomendo para quem não gosta de sofrer perdas ou para iniciantes que podem se sentir oprimidos pela crueldade desse jogo.

Complexidade: ***. Se fosse resumir a estratégia do jogo seria:tudo o que você fizer, pense em maximizar seus pontos de vitória por turno ou final de jogo enquanto planeje minimizar as suas perdas. Trabalhadores morrerão, isso é um fato. Mas o jogador que só pensar em preservar o seus trabalhadores ao combater as desgraças VAI perder.

Independente de idioma? Sim

Achado no Brasil? Não. E está raro e caro de achar lá fora. Porém, você pode jogar ele de graça no boardgamearena.com . Caso alguém tenha interesse em conhecê-lo e jogar no site, é só mandar uma MP.

Preço: ***** .  O jogo em si não é para ser caro, mas como está fora de catálogo há anos, o seu preço está alcançando valores muito altos.

Opinião: In the Year of the Dragon é um dos jogos de design mais enxuto e elegante que já conheci. Ele é rápido e tem boa profundidade estratégica, embora seu aspecto cruel afasta muitos jogadores. Alguns amigos meus odeiam e se recusam a jogá-lo por considerá-lo “negativo demais” ou em outras palavras: “é um jogo que ganha quem se fode menos”.  Mas para quem não se incomoda com essa crueldade ou é um masoquista, este jogo vale muito a pena.
« Última modificação: Fevereiro 25, 2015, 11:16:06 am por Victor »