Autor Tópico: Gesta Francorum  (Lida 675 vezes)

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Gesta Francorum
« Online: Janeiro 01, 2012, 10:30:54 pm »
Não sei por que comecei a escrever estas memórias. Talvez o desejo de contar casos de uma forma especial. Ou porque acabei me afeiçoando a algumas pessoas.
Primeiro por Cácia, ou a Condessa Maria Leocácia de Mendonza, cujas terras e famílias foram dizimadas pelos mouros na Espanha. Lembro dela vir para Sarno e ser cuidada por Altieri Bonati como uma filha.
Também por Alessio, aquele bicho em forma de gente. Fareja, escuta e se norteia em qualquer canto dos bosques ou das montanhas. Hábil e perigoso com a lança.
Teodorico, o sobrinho do nosso bispo e acólito, sei lá por que doideiras de seu coração. Afirma que até castidade assumiu e eu que a exerço desde meus votos me pergunto: Que??? Fala bem o latim, estudado que foi em Roma pelos bons contatos do tio. Já mostrou que é bom no manejo da espada e possui o coração de um autêntico cavaleiro.
E até mesmo Bronco, ou Hugh, jpa que recentemente revelou seu nome de batismo. Nunca vi criatura tão feia, fedida e mal-humorada. Mas confesso que vi poucos vibrarem com tanta força uma maça, usar bem o escudo e agir com lealdade. Está afastado de Deus, mas não tem mau coração.
Por razões que aos poucos explicarei, esse exótico grupo se apresentou ao Duque Boemundo de Taranto, o mais infame nobre da Itália cujas milícias se dirigem para Constantinopla, atendendo o chamado de Deus, através de nosso amado e sábio papa Urbano II.
Por alguma razão que ainda desconheço, ele não caiu de encantos pela nossa Condessa. Não, não, ela não é fútil, mas é quase impossível que um homem não se altere diante de sua beleza e Inteligência. Mas o Duque a hostiliza, diminuindo suas virtudes e ofendendo sua origem ibérica.
Testando Bronco e vencendo-o em um treino, com certa dificuldade, ele começou a se convencer de que podemos colaborar na luta contra os infiéis. Hehe! Foi um treino, mas que medo! Boemundo parece tão forte quanto um urso e nunca vi um homem tão alto. Maneja um mangual como se puxasse uma vareta e seus olhos azuis se tornam bestiais a cada golpe. Bronco resistiu bem, soube acertar alguns golpes, mas duvido que alguém possa se igualar ao maldito Duque.
De toda forma, ele nos aceitou e seguiremos em direção a Constantinopla.
Ontem, tivemos uma bela festa comemorando a saída do exército. Quem não gostou muito foi Roger da Sicília, tio de Boemundo e que contava com ele para a continuação do cerco a Amalfi, perto de onde nos encontramos.
A festa foi animada. Cácia e Teodorico, de nascimento e comportamento nobres, foram tratados com respeito por todos. Os dois ficaram sabendo que os navios que partem em cerca de quinze dias, levarão muitos nobres. Obviamente, as acomodações devem ser boas. Melhor do que ir com soldados, ou com provisões, ou ainda pior, com as montarias.
Os dois trataram de nos conseguir um bom lugar com Fazio, um dos comandantes da armada do Duque. Teodorico não foi bem tratado. Mas também! Onde já se viu interromper uma partida de dados e falar de forma exigente. Mas ainda bem que voz sedosa de Cácia atraiu a simpatia do comandante. Ótimo, pensei, vamos para a terra dos gregos num navio confortável.
Mas o dia seguinte mostrou que talvez isso não mais ocorra. Maldito Duque! Ele nos mandou em uma missão, pois um carregamento de escudos foi roubado e ele nos designou para achá-los. Isso vai nos atrasar!
Seguimos rapidamente nas pistas fornecidas. Alessio titubeou por um momento, mas após alguns quilômetros se certificou dos rastros e sabemos para onde a carroça se dirige. Se tudo der certo, em breve a encontraremos e que Deus nos ajude a recuperar a carga e... o mais importante, tenhamos tempo de chegar aos bons navios antes que zarpem!
(Padre Alfredo de Sarno)
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Localizamos a carroça com os valiosos escudos a uma pequena distância da vila.
Alessio sorrateiramente conseguiu abater duas sentinelas, antes que fosse dado a alarme da nossa presença.
Bronco e Teodorico partiram para cima dos demais bandidos, enquanto Cácia preparava sua besta.
O combate parecia fácil, mas vi que um besteiro estava localizado na colina, em um local estratégico. Por pouco, uma de suas setas não feriu Bronco. Não sei o que me deu... mas corri para a colina e surpreendi o besteiro. O maldito ainda teve tempo de me alvejar, mas Deus estava comigo. Apesar da dor, consegui andar até o besteiro e acertar-lhe uma bordoada certeira! Hehe!
Alessio deu cabo de mais um. Bronco e Teodorico dos demais, embora o jovem acólito, em sua ânsia de batalha tenha quebrado sua espada em um ataque despropositado.
Acabamos por recuperar a carga do Duque Boemundo. Contudo, tenho medo de que sejamos amaldiçoados pela falta de sentimento cristão dos meus companheiros. Não esperaram para que se desse um enterro cristão aos mortos. Bandidos ou não, eles eram batizados!
Retornamos a Amalfi e de lá seguimos até o porto de Bari, cruzando a Itália. Grande parte do exército já havia saído, mas ainda faltava muito a ser transportado. Amanhã, embarcaremos com destino ao território dos gregos. Que a Santa Mãe de Deus abençoe nossa travessia.
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Deus Misericordioso teve piedade de nossas almas!

A travessia não foi simples como imagináramos. Fomos atacados por piratas e por pouco não sucumbimos. Um combate encarniçado teve início. Alessio e Cácia passavam muito mal devido à falta de costume em embarcações. Por pouco, Alessio não morreu, mas teve sérios ferimentos. Teodorico não acertava seus golpes, mal se mantendo equilibrado. Bronco sofreu com seu oponente e começou a perder muito sangue. Contudo, num golpe preciso quase arrancou o braço do desalmado pirata e a sorte começou a mudar de lado. Foi uma tarde tumultuada onde as ondas se encheram de vermelho. Uma tarde para ser esquecida.

No outro dia, chegamos ao porto de Avlona. Muitas embarcações vêm e vão desse importante entreposto de mercadorias. Multidões vinham e partiam, em sua maioria, participantes do notável exército que o Duque Boemundo reuniu. Armamos uma tenda junto a vários nobres de todos os lugares da Itália, principalmente.

Cerca de uma semana depois, o exército começou sua marcha para o interior do território bizantino, vindo a acampar novamente no vale de um bonito e caudaloso rio. Fomos informados que se trata do Rio Drino, um dos importantes condutores de água da rica e fértil região. A promessa é de que ficaríamos apenas uma semana, mas ela se transformou em meses.

Naquela região, todo o exército finalmente foi reunido. Pelo que imagino, havia pelo menos 2.000 cavaleiros e igual número de ajudantes de campo. Certamente, não menos de 14.000 homens de infantaria.

Não é fácil manter em tranqüilidade tanta gente. Contendas, roubos, assassinatos e estupros se tornaram comuns. O clima é bastante tenso, por mais que o Duque castigasse impiedosamente todos que caíam em suas mãos com evidências (ou até mesmo meras suspeitas) de má conduta.

Muitos mercadores, ladrões, videntes e prostitutas passaram a margear o acampamento. É uma verdadeira cidade que finalmente voltou a se mover, em direção a Kastoria, na rota para Constantinopla. Trata-se de uma cidade que adentra como península nas margens de um belo e imenso lago que lhe dá proteção natural contra invasões. Os habitantes são desconfiados, mas pacíficos. Ao que parece, a belicosidade pertence ao nosso próprio exército. Espoliação de gado, cavalos e mercadorias. Muita gente humilde sendo privada dos seus bens. Os saques são rotineiros nas bordas da cidade, arruinando pequenos camponeses.

O nobre Tancredo nos procurou recentemente, informando do desejo do Duque de que sejamos comandantes de algumas guarnições ao longo da jornada. Ele está impressionado com nosso desempenho na recuperação da carga de escudos e na luta contra os piratas.

Aproxima-se a festa de Natal e o Duque Boemundo informou que não seguirá caminho até depois das comemorações. Imaginávamos que teríamos um momento de paz, propício à meditação e à reconciliação com Deus, mas nesta semana, fomos chamados à presença do Duque.
Um dos cálices usados nas celebrações da Santa Missa havia sido roubado. Uma relíquia que, segundo alguns, foi presente do próprio São Marcos. Sempre imagino este santo vindo da Judéia com uma grande caravana para transportar a infinidade de relíquias que ele deixou em nossas terras!

O Duque exigia que encontrássemos o bendito cálice! Como faríamos isso?

Inicialmente, fomos ao encontro dos guardas que vigiavam a tenda onde a relíquia era guardada. Eram três amaldiçoados que estavam pendurados em troncos, apenas com suas vergonhas guardadas em trapos. Açoitados, sobre suas feridas foi jogado vinagre.

Pouco puderam nos informar. Bronco perdeu a cabeça com um deles e desferiu-lhe um golpe. Alessio, verificando os rastros, percebeu que a nitidez de um que saía do acampamento, se encontrava com um cavalo e disparava rumo norte. Mas não havia mais como acompanhar o trajeto.

Os locais mais próximos eram o mosteiro de Santa Julieta e São Kiriko, o acampamento de mercadores fora dos muros de Kastoria e a própria cidade. Nesta, não se podia entrar armado e era necessário pagar uma taxa.

Rumamos para o acampamento de mercadores. Procuramos contratar um intérprete. Disponibilizaram-se três pessoas: um monge bizantino; uma prostituta, Mariella e um provável ladrão, Doriano. O monge tinha jeito de lunático e o ladrão não nos pareceu mais confiável que a moça.

Ela nos levou a diversos mercadores até que, por algumas moedas, conseguimos a informação de que havia um mercador na cidade que contrabandeava produtos sacros.

Graças ao respeito imposto por Cácia, conseguimos convencer os guardas a permitir que Bronco ingressasse na cidade com suas armas, enquanto nós entramos apenas com facas escondidas em nossas vestes.

Localizamos a casa do mercador, de nome Aristilo. Alessio conseguiu pular o muro da residência e se escondeu. Cácia chamou à porta e foi atendida por um servo que mais parecia uma sentinela. Sem esperar a conversa, Alessio arromba uma das janelas, alertando os que estavam dentro da casa.

Bronco arrastou Cácia para longe, maldizendo a atitude de Alessio.

Lá dentro, munido apenas de uma faca, nosso mateiro não conseguia evitar os golpes de maça do seu adversário.

Não sei o que deu em mim... Pulei o muro depois de algumas tentativas frustradas, enquanto Teodorico arrombava o portão. Chegamos na contenda com Alessio a ponto de desmaiar. Acertei alguns golpes com meu cajado e num golpe fulminante, Teodorico matou o oponente, deixando o mercador à nossa mercê.

O pobre homem devolveu o cálice, dizendo que só o havia roubado para pagar um vultoso resgate para bandidos que encarceraram seu filho. Não ficamos para o resto da história. Deus tenha piedade da sua pobre alma e do seu filho. Nós, mais que depressa, levamos ao Duque a relíquia recuperada.
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Logo após o Natal, o exército seguiu pela Pelagônia onde nos deparamos com uma cidade. O Duque mandou o exército estacionar e rumores diziam que ela seria atacada, pois se tratava de um refúgio de bogomilos.
Nestes dias, demos falta de Teodorico. Acreditamos que ele tenha retornado a Kastoria para ajudar aquele mercador. Que Deus o abençoe e o proteja.
Eu sou um homem de Deus... não um soldado.
Não quis participar dos combates a não ser vendo a escaramuça ao longe e rezando pelos nossos fiéis, em especial por Cácia, Alessio e Hugh. A eles, foi conferida uma missão especial. Eles comandariam as tropas que romperiam os portões da cidade dos bogomilos. Deviam vencer a resistência preparada às portas da cidade e permitir que as escadas e o aríete chegassem sem problemas.
Não sei se acredito realmente nas intenções de Boemundo. Pareceu-me mais um teste para seu exército e um recado ao Basileu Aleixo do que realmente uma repulsa aos hereges. De toda forma, seu discurso à frente da tropa estava cheio de palavras de fé contra o mau uso das Santas Escrituras.
Cácia liderou tropas pouco robustas. Os homens não gostaram de serem comandados por uma mulher, mas ninguém ousaria desafiar as ordens diretas do Duque de Taranto. Hugh se postou junto à unidade de cavaleiros pesados e aos guerreiros a pé, estes bem protegidos por seus escudos. Alessio por fim, comandou lanceiros e a unidade de cavalaria rápida.
Nossos primeiros inimigos estavam posicionados à frente dos muros. Uma balestra à esquerda, protegida por guerreiros e por um terreno pantanoso. À frente dos portões, lanceiros e combatentes leves aguardavam. Duas pequenas torres escondiam arqueiros.
Meus amigos avançaram com a cavalaria e a infantaria pesada protegendo as tropas leves, numa formação pouco usual. Os lanceiros e a cavalaria leve partiram em outra direção, de modo a atacar diretamente a balestra, passando pelo terreno encharcado.
Os escudos normandos protegeram bem as tropas até se aproximarem dos portões.
Nossa cavalaria leve, num gesto ousado, ofereceu-se às flechas inimigas, atraindo a atenção dos arqueiros enquanto a infantaria avançava. Contudo, não evitou o terreno perigoso e foi alvo fácil dos arqueiros. Por pouco a unidade não debandou.
Numa distância mortífera, a cavalaria pesada irrompeu contra a linha defensora, fincando em suas lanças os corpos oponentes.
O sucesso do primeiro ataque da cavalaria encorajou a infantaria leve, mas é sabido que emoção sozinha não significa nada em uma batalha. Uma parte se lançou despreparadamente contra lanceiros inimigos e foram recuados pelas lanças.
A cavalaria pesada continuou a atacar, dispersando os defensores.
Cácia, com outra parte de suas forças se infiltrou de uma maneira inesperada nas fileiras inimigas, causando muitas mortes na linha de defesa.
No outro flanco, os lanceiros eram castigados pelas flechas, mas resistiam bem e começaram a lutar contra os defensores da perigosa balestra.
Enquanto os lanceiros tomavam melhor posição e faziam seus inimigos recuarem, a cavalaria pesada e os guerreiros comandados por Cácia dizimavam seus oponentes, havendo muitas debandadas. O pânico tomou conta das tropas defensoras. Atento ao que ocorria, o Duque enviou os aríetes e as escadas.
Em pouco tempo, os portões foram derrubados e o exército incitado a invadir a cidade.
Hugh tentou desmotivar Cácia, pressentindo o massacre que ocorreria, mas a euforia dela e de Alessio foram maiores. Eles entraram na cidade e derrotaram um grupo de soldados e um cavaleiro. Avançando mais, chegaram a uma praça onde homens, mulheres e crianças os aguardavam com foices, facas e pedras.
Diante daquelas pessoas, eles pararam e evitaram lutar. Alessio tentou afastar um oponente, quebrando-lhe a perna. Uma criança ao lado chorava ao ver o sangue jorrar da fratura exposta. Mesmo sem entenderem as palavras, os cidadãos perceberam que ali estavam cruzados que não estavam dispostos a massacrá-los.
Contudo, outros combatentes chegaram e queriam levar as mulheres. Hugh se interpôs a um deles, chutando-o para longe e tudo indicava uma luta. Mas eis que surgiu o Duque Boemundo, acompanhado de sua guarda.
Cácia reclamou aquelas pessoas para si, exigindo-os como parte do saque. Boemundo riu e disse que podiam pegar o que quisessem, mas os hereges eram seus. Cácia ousou desafiar a autoridade do Duque. Contendo sua ira, Boemundo fez a proposta de que eles salvassem apenas as mulheres e a criança que ainda se mantinha perto do pai. Se recusasse, todos seriam mortos. Todos... incluindo minha nobre Condessa, Hugh e Alessio. Mais que depressa, Hugh se antecipou à Cácia e aceitou a oferta, levando para longe dali os demais.
Quando meus amigos retornaram, ouvi os relatos. Amargura na voz de cada um deles, aumentada pelo choro da criança e daquelas mulheres. Amargura e terror quando, à noite, os sobreviventes foram encarcerados em um grande prédio ao qual foi ateado fogo.
Junto à comemoração efusiva do exército, sentimos o cheiro de carne queimada, gritos bestiais e o fim de uma cidade de hereges que o destino interpôs na caminhada do exército de Deus.
"Sonhos são o que temos." Jojen Reed